segunda-feira, 2 de abril de 2012

Mídia e ilusões


       Ao tomar conhecimento de que há, no momento, um projeto de lei que pretende proibir a transmissão de lutas pela TV, com o intuito de resguardar crianças, adolescentes, jovens e até mesmo adultos, de assistir a cenas violentas explícitas, pergunto:
     ─ Por que será que existem pessoas que procuram as MMA (Mixed Martial Arts) – combates de vale-tudo? Por que as academias estão implantando esta modalidade e o público tem aderido? Por que tem gente que liga a TV para assistir?

domingo, 25 de março de 2012

Como surgiu a psicanálise?

Historicamente, a psicanálise nasceu a partir da experiência clínica de um médico, neurologista, Sigmund Freud (1856 - 1939). Ele recebia os pacientes que outros médicos já haviam esgotado os recursos para tratar, e se propunha a escutar os relatos sobre seus sintomas corporais que se manifestavam, por exemplo, como paralisias, cegueira, dores em geral. Freud investigava que tipo de "doenças" seriam estas que, ao serem pesquisadas clinicamente, não tinham correspondência com lesões anatômicas. Exemplo: o paciente apresentava uma cegueira sem justificativa de qualquer alteração fisiológica. E mais, uma cegueira que, a partir de um determinado momento, desaparecia.
A Psicanálise nasceu da escuta desse "médico" muito singular que criou uma nova maneira de acolher o sofrimento humano, diferente da Medicina e da já então existente Psicologia. Atenção: isso não dispensa a Medicina, apenas aponta seu limite (dificilmente reconhecido pelos médicos e pelos pacientes) – limite este que faz com que médicos, ao se depararem com a dificuldade de curar, e com a insistência dos pacientes em “descobrir sua doença” substituam um medicamento por outro, solicitem exames e mais exames e proponham cirurgias para ver o que pode ser encontrado. Insisto, muitas vezes a pedido dos próprios pacientes.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Quando o amor perde o rumo



          Reproduzo aqui um dos comentários recebidos a partir do tema tratado nas duas colunas anteriores: “Quem disse que eu quero ser salvo?” e “Devo intervir na vida dela?”. Nele, a leitora apresenta suas perguntas e observações: “Como podemos estar diante de uma pessoa que amamos e que a olhos vistos prejudica sua própria vida, seus filhos e as pessoas que com ela convivem? Como respeitar seu desejo de que talvez não queira mesmo ser ajudada? Acredito não poder desistir de quem amo e simplesmente lavar as mãos diante de situações que pedem intervenção. Tenho a compreensão de que nada podemos fazer em relação a uma pessoa que não quer se ajudada”. E acrescenta: “Respeita-se o desejo da pessoa querida e fica-se de expectador da destruição de sua própria vida? Penso em minha dificuldade em suportar isso”.
          Trabalharei por partes:
  1. Há uma pessoa que eu amo (ou mais pessoas).
  2. Acredito não poder desistir de quem amo.
  3. Tenho a compreensão de que nada posso fazer em relação a uma pessoa que não quer ser ajudada.
  4. Respeito o desejo da pessoa querida e fico de expectador da destruição de sua própria vida?
  5. Tenho dificuldade em suportar isso.
          Inicio pelo final. Sim, é muito difícil suportar que alguém que amamos esteja se destruindo. Esta talvez seja a questão mais delicada que se apresenta neste contexto. A idéia de que suportar isso é simplesmente “lavar as mãos” ou “ficar como expectador da destruição de uma vida” é uma idéia complicada. Explico: sempre vai haver uma distância entre a minha percepção de que alguém está se destruindo e a percepção que esta pessoa tem da sua própria vida.
          Não estou me referindo a “percepções certas” ou “percepções erradas”. Estou me referindo à distância que existe entre o que eu percebo e o que o outro percebe. Este problema poderia facilmente ser resolvido lançando mão de argumentos tais como “isso é certo” e “aquilo é errado”. Poderia, mas não resolve. Os grandes impasses pessoais não são resolvidos pelos conceitos de “certo” ou “errado”. Eles permanecem intactos apesar desses conceitos. Ou seja, há algo mais forte que essas racionalizações que incluem: “isso é bom”, “aquilo não é bom”, “faz mal” e “não faz mal”.
           Não acredito que o reconhecimento de que os impasses são imunes a esses conceitos seja sinônimo de “lavar as mãos” ou ficar como “expectador”. Ao contrário, acredito que é um primeiro e grande passo reconhecer que há algo no outro que escapa a mim. “Escapa” no sentido de que está fora da minha intervenção, no sentido de que o outro é profundamente diferente de mim, ele é um outro, não é um espelho meu.
           Acredito que o amor perde o rumo quando amar significa moldar o outro aos meus conceitos, moldar o outro à minha angústia, em última instância. O amor perde o rumo quando eu tomo atitudes com o outro para que eu não me sinta culpada depois (depois do pior acontecer). Nesse sentido, penso que o “lavar as mãos” seja justamente isso, fazer o que eu acho que devo fazer, intervir. Porque depois, depois que eu fiz o que eu achava que deveria ter feito, eu penso que posso dormir tranqüila, porque se acontecer o pior eu fiz a minha parte. Então, é muito mais uma questão de tranqüilizar a minha consciência do que propriamente “ajudar” o outro.
           Prossigo aqui com um outro comentário recebido onde o destaque é que as colocações que faço “são diferentes do que se diz geralmente em relação à essas questões”. Sim, são colocações que vão na contra-mão do senso comum e também na contra-mão dos dispositivos que nos cercam. Eu pergunto: de que nos serve o senso comum, de que nos servem os dispositivos quando, diante dos impasses que as situações humanas nos apresentam, nos vemos desprovidos de respostas e de receitas apesar de todas as recomendações?
          De que nos servem o senso comum e os dispositivos quando nos vemos seguindo os passos já marcados e caindo em um buraco de situações “irresolvíveis”?
          Reitero: os impasses se apresentam. Tanto na nossa vida pessoal, quanto na vida daqueles que amamos.
          Como responder a eles fora da angústia que me leva a formatar minha vida e/ou a vida do outro?
         Como responder a eles sem “lavar as mãos”? Sem fazer de minha resposta um alívio para minha consciência?

Elisabeth Almeida – psicanalista
bethxxxalm@yahoo.com.br

segunda-feira, 5 de março de 2012

Realidade psíquica e sexualidade.


          Nossa tentativa de considerar uma realidade que não é a realidade do mundo, de levar em conta que algo em nós se apresenta tão distintamente, tão singularmente, nos levou a refletir sobre a realidade psíquica.
          Dela dissemos ser a fresta pela qual respiramos, teimamos em nossa singularidade, temos a possibilidade de criar, de inventar, de sonhar.
          Encontramos na sexualidade o campo que mais diretamente pode nos apresentar as nuances da realidade psíquica.
          Partindo da compreensão de que as brincadeiras infantis são manifestações da vida psíquica, de que nelas, na aparente simplicidade de seus elementos há uma complexidade de significações, estamos propondo que esta mesma relação – de elementos simples tecidos por complexidades – se apresenta na vida sexual. Ou seja, primeiro brincamos, depois, continuamos repetindo a brincadeira na sexualidade.
         Quais os espaços de nossas vidas – fora da vida convencional e necessária – podem acolher nossa realidade psíquica?
         O espaço das fantasias e o campo da sexualidade podem fazê-lo. Claro, considerando inclusive que eles podem se mesclar. Explico: há fantasias que dizem respeito a conquistas, a aquisições, aparentemente sem conteúdo sexual. E há as fantasias que se evidenciam como sexuais.
          Entre outros aspectos, dentre os discutidos sobre a realidade psíquica, nos detivemos na questão da dor – seja ela na vertente de produzir a dor ou na vertente de experimentar a dor.
         Questão curiosa. A dor como elemento a ser considerado, a não ser excluído da experiência humana.
         Qual seria o resultado de usar a sexualidade como campo de acolhimento para as experiências de dor?
        Qual o resultado, numa sexualidade partilhada e consentida, da inclusão dessas experiências?
         Por que será que a dor evidenciada nas relações não-sexuais é tão admitida, suportada, aceita?
          Que elemento é esse que portamos e insistimos como “fazendo parte da vida”?
         “Faz parte da vida” imprimir dor ao outro ou sofrer dela no trabalho, nos relacionamentos, no exercício de funções.
           Faz parte do proibido, é moralmente considerada como perversão sua inclusão na sexualidade, no jogo sexual consentido.
           Por um lado, “perventendo” a vida – permitindo o exercício sobre o outro ou sobre si e o conseqüente desfrute – por outro, “empobrecendo” a vida sexual – retirando dela um dos elementos que poderiam, talvez, se exercitados no âmbito do jogo da fantasia, não necessitar passar diretamente para a realidade do mundo.

(texto elaborado a partir do encontro do dia 28 de fevereiro de 2012, com a colaboração de Ana Paula G. Garcia).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Flash 5: O que é a realidade psíquica e como ela surge?

         Temos pelo menos duas realidades: a realidade do mundo e a realidade psíquica.
         O que é a realidade do mundo? Talvez, a concretude de uma cadeira, um colchão, um sorvete, um copo de vinho, uma cachoeira, um laço de fita. Tudo isso existe por si ou construído pelo homem, e ganha um sentido quando eu vejo, deito, tomo, bebo, me banho, uso.
         Mais além da concretude das coisas, existem os dispositivos que determinam como é que elas podem ser usadas. São eles: a moral, a religião, a ciência, a filosofia, a linguagem. Ao estabelecerem “as regras do jogo”, estabelecem privações necessárias para que um homem possa conviver no meio de outros. Essas privações impõem “um custo”, um preço, uma cota de satisfação da qual se tem que abrir mão.
         Abrimos mão e não abrimos. Aqui entra a realidade psíquica. Quanto do impossível a ser vivido não é vivido nas fantasias? Quanto do que não pode ser dito, não pode ser feito, não pode ser realizado não é vivido no mundo interno?
         Esse é um dos aspectos da realidade psíquica. O aspecto transgressor, que recupera uma parte da satisfação impedida pelos dispositivos. Nesse sentido, a realidade psíquica transgride a privação o tempo todo. E o faz para salvar-nos de um achatamento, de um aplastamento, onde seríamos meramente robôs. Totalmente entregues aos dispositivos, o que temos são sujeitos medicados para qualquer sofrimento ou qualquer inadequação; sujeitos convertidos, fanáticos, que se matam e matam; pais, filhos, educadores, parceiros amorosos, que, em nome de protocolos ou de regras impõem sobre o outro sua tirania e sua violência (velada ou não ).
          Da realidade psíquica podemos dizer que é aquilo que resta no homem depois da inserção dele no campo da cultura ou do simbólico. Aquilo que mantém sua “inadequação” parcial (e algumas vezes total) ao submetimento dos dispositivos. De uma certa forma, aquilo que o salva deles.
          Dela podemos dizer também que, ao contrário do que se prega, nela habita a fresta por onde o homem respira, o espaço onde ele teima em sua singularidade, a possibilidade que ele tem de criar, de inventar, de sonhar.
          Sobre o seu surgimento, teoricamente muita coisa pode ser dita. Fico apenas com o seguinte: ao ser marcado com a palavra, marcado pelo outro mesmo antes de nascer, há algo que fica fora, inapreendido, como que solto do mundo externo; indomável, coexiste com a realidade do mundo, porém, escolhe o tom da cor que vai ver, determina o sentido do que vai ouvir, significa as experiências pelas quais vai passar. Singularmente, não no plural.