terça-feira, 17 de julho de 2012

Estranhezas

            
           Por suposto, conforme reza a cartilha do bom senso, quem está aflito quer ser acalmado, o insone quer dormir, o desesperado quer paz, o ocupado quer descanso, o doente quer sarar, o angustiado quer alívio. Nem sempre. Aliás, pouquíssimas vezes. Na verdade, na maioria das vezes, quando acalmamos alguém, ocorre desta pessoa achar que estamos subestimando sua aflição, que não estamos levando em consideração seu sofrimento, que “pimenta nos olhos do outro não dói”.
            O insone, que acreditamos que precisa dormir, está, embora reclame, firmemente decidido a usar suas noites para tecer seus pesadelos, ao invés de entregar-se aos sonhos – que podem ser de outra ordem.
            O desesperado, este que mobiliza todos ao redor com seu sofrimento atroz, pede muito mais um outro que se compadeça dele, do que um outro que lhe acene com a paz e com o abandono de seu teatro particular – cuja cena só faz sentido se expectadores se desesperarem junto.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

As consequências do medo


         Escrevo a partir da leitura de um romance ficcional: “Nêmesis” – de Philip Roth, editado pela Companhia das Letras.
         A história se passa no verão de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. A cidade de Nova Jersey é assolada por um surto de poliomielite, ameaçando as crianças da cidade com a paralisia e a invalidez permanente, quando não com a própria morte.
         Sobre este pano de fundo, o destaque é dado a um homem jovem, Bucky Cantor, de 23 anos, responsável por um pátio de recreação de uma escola. É a história da tragédia pessoal desse homem, tomado pelo medo e pela culpa. E aqui eu proponho uma inversão: é a história de como um homem tomado pelo medo e pela culpa, invadido por esses dois sentimentos, entregue a eles, transformou sua própria vida numa imensa tragédia.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Flash 7: Eu não sei se isso é para mim.


 Fique tranqüilo. Não é. Nada é “para mim”. Nem a chuva, nem a música, nem o ódio,... nem o amor é “para mim”.
Que eu não me sinta na obrigação de pegar nada.
Eu só pego quando eu acho que algo é dirigido a mim. Tentarei esclarecer esse “pegar”. É quando, diante de uma situação, eu me sinto perseguido ou privilegiado, me sinto escolhido ou excluído. Se me sinto assim, tenho que confrontar ou estar à altura. Tenho que dar conta ou deixar de vez.

domingo, 15 de abril de 2012

Quem pode exercer a psicanálise?


 Muitas pessoas perguntam: “quem pode exercer a psicanálise e quais as diferenças entre essa prática e as executadas pelos psicólogos e pelos psiquiatras?”.
Já vimos no artigo anterior , “Como surgiu a psicanálise” , que, no Brasil, a profissão de psicanalista não é reconhecida, ou seja, o psicanalista como tal não existe no Código Brasileiro das Ocupações. Isso não impede que existam pessoas com formações diferentes que exerçam a psicanálise e conseqüentemente, acarreta diferentes maneiras de trabalhar.
O mais freqüente é encontramos pessoas que trabalham com a psicanálise e são formadas inicialmente em Psicologia ou em Medicina – o que permite que a pessoa tenha um CRP ou CRM para efeitos legais. Não existe faculdade de Psicanálise no Brasil e em nenhum outro país. Coloca-se então a questão da formação do psicanalista como algo que se dá fora do âmbito universitário. Voltarei a isso daqui a pouco. No momento, consideremos que os profissionais psicanalistas no Brasil são geralmente aqueles que têm a formação em Medicina ou Psicologia.

domingo, 8 de abril de 2012

TRÊS


     Das discussões do grupo de terça (“Cinema e Psicanálise”) pude pensar que se o ser humano se constrói a cada momento, o seu psiquismo acompanha esse movimento, se construindo no processo. Nesse sentido, a realidade psíquica poderia ser resignificada pelas experiências da vida, se assim permitíssemos. Pensando nessa “permissão”, assisti ao filme do diretor alemão Tom Tykwer (com título original Drei – Três – no Brasil divulgado como “Triangulo Amoroso”). No filme três pessoas constroem uma possibilidade única de viver seus afetos, compondo um quadro de rara beleza.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Mídia e ilusões


       Ao tomar conhecimento de que há, no momento, um projeto de lei que pretende proibir a transmissão de lutas pela TV, com o intuito de resguardar crianças, adolescentes, jovens e até mesmo adultos, de assistir a cenas violentas explícitas, pergunto:
     ─ Por que será que existem pessoas que procuram as MMA (Mixed Martial Arts) – combates de vale-tudo? Por que as academias estão implantando esta modalidade e o público tem aderido? Por que tem gente que liga a TV para assistir?

domingo, 25 de março de 2012

Como surgiu a psicanálise?

Historicamente, a psicanálise nasceu a partir da experiência clínica de um médico, neurologista, Sigmund Freud (1856 - 1939). Ele recebia os pacientes que outros médicos já haviam esgotado os recursos para tratar, e se propunha a escutar os relatos sobre seus sintomas corporais que se manifestavam, por exemplo, como paralisias, cegueira, dores em geral. Freud investigava que tipo de "doenças" seriam estas que, ao serem pesquisadas clinicamente, não tinham correspondência com lesões anatômicas. Exemplo: o paciente apresentava uma cegueira sem justificativa de qualquer alteração fisiológica. E mais, uma cegueira que, a partir de um determinado momento, desaparecia.
A Psicanálise nasceu da escuta desse "médico" muito singular que criou uma nova maneira de acolher o sofrimento humano, diferente da Medicina e da já então existente Psicologia. Atenção: isso não dispensa a Medicina, apenas aponta seu limite (dificilmente reconhecido pelos médicos e pelos pacientes) – limite este que faz com que médicos, ao se depararem com a dificuldade de curar, e com a insistência dos pacientes em “descobrir sua doença” substituam um medicamento por outro, solicitem exames e mais exames e proponham cirurgias para ver o que pode ser encontrado. Insisto, muitas vezes a pedido dos próprios pacientes.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Quando o amor perde o rumo



          Reproduzo aqui um dos comentários recebidos a partir do tema tratado nas duas colunas anteriores: “Quem disse que eu quero ser salvo?” e “Devo intervir na vida dela?”. Nele, a leitora apresenta suas perguntas e observações: “Como podemos estar diante de uma pessoa que amamos e que a olhos vistos prejudica sua própria vida, seus filhos e as pessoas que com ela convivem? Como respeitar seu desejo de que talvez não queira mesmo ser ajudada? Acredito não poder desistir de quem amo e simplesmente lavar as mãos diante de situações que pedem intervenção. Tenho a compreensão de que nada podemos fazer em relação a uma pessoa que não quer se ajudada”. E acrescenta: “Respeita-se o desejo da pessoa querida e fica-se de expectador da destruição de sua própria vida? Penso em minha dificuldade em suportar isso”.
          Trabalharei por partes:
  1. Há uma pessoa que eu amo (ou mais pessoas).
  2. Acredito não poder desistir de quem amo.
  3. Tenho a compreensão de que nada posso fazer em relação a uma pessoa que não quer ser ajudada.
  4. Respeito o desejo da pessoa querida e fico de expectador da destruição de sua própria vida?
  5. Tenho dificuldade em suportar isso.
          Inicio pelo final. Sim, é muito difícil suportar que alguém que amamos esteja se destruindo. Esta talvez seja a questão mais delicada que se apresenta neste contexto. A idéia de que suportar isso é simplesmente “lavar as mãos” ou “ficar como expectador da destruição de uma vida” é uma idéia complicada. Explico: sempre vai haver uma distância entre a minha percepção de que alguém está se destruindo e a percepção que esta pessoa tem da sua própria vida.
          Não estou me referindo a “percepções certas” ou “percepções erradas”. Estou me referindo à distância que existe entre o que eu percebo e o que o outro percebe. Este problema poderia facilmente ser resolvido lançando mão de argumentos tais como “isso é certo” e “aquilo é errado”. Poderia, mas não resolve. Os grandes impasses pessoais não são resolvidos pelos conceitos de “certo” ou “errado”. Eles permanecem intactos apesar desses conceitos. Ou seja, há algo mais forte que essas racionalizações que incluem: “isso é bom”, “aquilo não é bom”, “faz mal” e “não faz mal”.
           Não acredito que o reconhecimento de que os impasses são imunes a esses conceitos seja sinônimo de “lavar as mãos” ou ficar como “expectador”. Ao contrário, acredito que é um primeiro e grande passo reconhecer que há algo no outro que escapa a mim. “Escapa” no sentido de que está fora da minha intervenção, no sentido de que o outro é profundamente diferente de mim, ele é um outro, não é um espelho meu.
           Acredito que o amor perde o rumo quando amar significa moldar o outro aos meus conceitos, moldar o outro à minha angústia, em última instância. O amor perde o rumo quando eu tomo atitudes com o outro para que eu não me sinta culpada depois (depois do pior acontecer). Nesse sentido, penso que o “lavar as mãos” seja justamente isso, fazer o que eu acho que devo fazer, intervir. Porque depois, depois que eu fiz o que eu achava que deveria ter feito, eu penso que posso dormir tranqüila, porque se acontecer o pior eu fiz a minha parte. Então, é muito mais uma questão de tranqüilizar a minha consciência do que propriamente “ajudar” o outro.
           Prossigo aqui com um outro comentário recebido onde o destaque é que as colocações que faço “são diferentes do que se diz geralmente em relação à essas questões”. Sim, são colocações que vão na contra-mão do senso comum e também na contra-mão dos dispositivos que nos cercam. Eu pergunto: de que nos serve o senso comum, de que nos servem os dispositivos quando, diante dos impasses que as situações humanas nos apresentam, nos vemos desprovidos de respostas e de receitas apesar de todas as recomendações?
          De que nos servem o senso comum e os dispositivos quando nos vemos seguindo os passos já marcados e caindo em um buraco de situações “irresolvíveis”?
          Reitero: os impasses se apresentam. Tanto na nossa vida pessoal, quanto na vida daqueles que amamos.
          Como responder a eles fora da angústia que me leva a formatar minha vida e/ou a vida do outro?
         Como responder a eles sem “lavar as mãos”? Sem fazer de minha resposta um alívio para minha consciência?

Elisabeth Almeida – psicanalista
bethxxxalm@yahoo.com.br

segunda-feira, 5 de março de 2012

Realidade psíquica e sexualidade.


          Nossa tentativa de considerar uma realidade que não é a realidade do mundo, de levar em conta que algo em nós se apresenta tão distintamente, tão singularmente, nos levou a refletir sobre a realidade psíquica.
          Dela dissemos ser a fresta pela qual respiramos, teimamos em nossa singularidade, temos a possibilidade de criar, de inventar, de sonhar.
          Encontramos na sexualidade o campo que mais diretamente pode nos apresentar as nuances da realidade psíquica.
          Partindo da compreensão de que as brincadeiras infantis são manifestações da vida psíquica, de que nelas, na aparente simplicidade de seus elementos há uma complexidade de significações, estamos propondo que esta mesma relação – de elementos simples tecidos por complexidades – se apresenta na vida sexual. Ou seja, primeiro brincamos, depois, continuamos repetindo a brincadeira na sexualidade.
         Quais os espaços de nossas vidas – fora da vida convencional e necessária – podem acolher nossa realidade psíquica?
         O espaço das fantasias e o campo da sexualidade podem fazê-lo. Claro, considerando inclusive que eles podem se mesclar. Explico: há fantasias que dizem respeito a conquistas, a aquisições, aparentemente sem conteúdo sexual. E há as fantasias que se evidenciam como sexuais.
          Entre outros aspectos, dentre os discutidos sobre a realidade psíquica, nos detivemos na questão da dor – seja ela na vertente de produzir a dor ou na vertente de experimentar a dor.
         Questão curiosa. A dor como elemento a ser considerado, a não ser excluído da experiência humana.
         Qual seria o resultado de usar a sexualidade como campo de acolhimento para as experiências de dor?
        Qual o resultado, numa sexualidade partilhada e consentida, da inclusão dessas experiências?
         Por que será que a dor evidenciada nas relações não-sexuais é tão admitida, suportada, aceita?
          Que elemento é esse que portamos e insistimos como “fazendo parte da vida”?
         “Faz parte da vida” imprimir dor ao outro ou sofrer dela no trabalho, nos relacionamentos, no exercício de funções.
           Faz parte do proibido, é moralmente considerada como perversão sua inclusão na sexualidade, no jogo sexual consentido.
           Por um lado, “perventendo” a vida – permitindo o exercício sobre o outro ou sobre si e o conseqüente desfrute – por outro, “empobrecendo” a vida sexual – retirando dela um dos elementos que poderiam, talvez, se exercitados no âmbito do jogo da fantasia, não necessitar passar diretamente para a realidade do mundo.

(texto elaborado a partir do encontro do dia 28 de fevereiro de 2012, com a colaboração de Ana Paula G. Garcia).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Flash 5: O que é a realidade psíquica e como ela surge?

         Temos pelo menos duas realidades: a realidade do mundo e a realidade psíquica.
         O que é a realidade do mundo? Talvez, a concretude de uma cadeira, um colchão, um sorvete, um copo de vinho, uma cachoeira, um laço de fita. Tudo isso existe por si ou construído pelo homem, e ganha um sentido quando eu vejo, deito, tomo, bebo, me banho, uso.
         Mais além da concretude das coisas, existem os dispositivos que determinam como é que elas podem ser usadas. São eles: a moral, a religião, a ciência, a filosofia, a linguagem. Ao estabelecerem “as regras do jogo”, estabelecem privações necessárias para que um homem possa conviver no meio de outros. Essas privações impõem “um custo”, um preço, uma cota de satisfação da qual se tem que abrir mão.
         Abrimos mão e não abrimos. Aqui entra a realidade psíquica. Quanto do impossível a ser vivido não é vivido nas fantasias? Quanto do que não pode ser dito, não pode ser feito, não pode ser realizado não é vivido no mundo interno?
         Esse é um dos aspectos da realidade psíquica. O aspecto transgressor, que recupera uma parte da satisfação impedida pelos dispositivos. Nesse sentido, a realidade psíquica transgride a privação o tempo todo. E o faz para salvar-nos de um achatamento, de um aplastamento, onde seríamos meramente robôs. Totalmente entregues aos dispositivos, o que temos são sujeitos medicados para qualquer sofrimento ou qualquer inadequação; sujeitos convertidos, fanáticos, que se matam e matam; pais, filhos, educadores, parceiros amorosos, que, em nome de protocolos ou de regras impõem sobre o outro sua tirania e sua violência (velada ou não ).
          Da realidade psíquica podemos dizer que é aquilo que resta no homem depois da inserção dele no campo da cultura ou do simbólico. Aquilo que mantém sua “inadequação” parcial (e algumas vezes total) ao submetimento dos dispositivos. De uma certa forma, aquilo que o salva deles.
          Dela podemos dizer também que, ao contrário do que se prega, nela habita a fresta por onde o homem respira, o espaço onde ele teima em sua singularidade, a possibilidade que ele tem de criar, de inventar, de sonhar.
          Sobre o seu surgimento, teoricamente muita coisa pode ser dita. Fico apenas com o seguinte: ao ser marcado com a palavra, marcado pelo outro mesmo antes de nascer, há algo que fica fora, inapreendido, como que solto do mundo externo; indomável, coexiste com a realidade do mundo, porém, escolhe o tom da cor que vai ver, determina o sentido do que vai ouvir, significa as experiências pelas quais vai passar. Singularmente, não no plural.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Quem te disse que eu quero ser salvo?

          Desenvolverei, numa seqüência de artigos, o problema que apresento como: “Quem te disse que eu quero ser salvo?” – incluindo nesta proposta “ser salvo”, “ser curado”, “ser ajudado”. Esse tema surgiu a partir das intervenções recentes realizadas na cracolândia, em São Paulo.
           Sei que, de início, parece um disparate colocar uma questão assim. Parece, mas não é. Parece, se pensarmos que somos sujeitos que apenas desejam o próprio bem, sujeitos bons, que querem o melhor, sensatos, controlados e controláveis.
           Isso se complica se admitirmos que sim, há uma realidade do mundo, no entanto, há também uma outra realidade: a realidade psíquica – que não funciona segundo os mesmos princípios. Se quisermos ignorar a realidade psíquica, aí sim podemos dizer que os controles – tanto os determinados por mim, quanto os determinados pelo outro – funcionam.
           Se quisermos ignorar a realidade psíquica podemos acreditar em “desenvolvimento do auto-controle”, em “aprendizagem de novas formas de lidar com a vida”, podemos acreditar que controlamos alguém, que adestramos: filhos, parceiros, alunos, pacientes ou funcionários.
          Todas essas “ferramentas” difundidas e aplicadas em nossa época, sob a crença inclusive de terem respaldo “científico” – respaldo esse que muitas vezes está contido num livro de auto-ajuda, numa reportagem do Fantástico, numa capa de revista, na fala de um “famoso” – desconsideram a realidade psíquica, que eu estou sublinhando.
          Tomo como exemplo as intervenções realizadas na cracolândia, em São Paulo, por considerá-las apenas um recorte que está sendo exibido pela mídia e discutido; por considerar que há cracolândias em todos os lugares; por considerar “cracolândia” apenas um nome que agrupa uma série de problemas, bastante graves, tanto de ordem individual, quanto social.
          A partir daí penso que podemos refletir sobre questões tais como: liberdade, espaço público, intervenção na vida do outro pela via da força – seja ela policial, médica, medicamentosa – sugestiva ou travestida de boas intenções, de compaixão ou de bondade.
          Tomo como desafio a pergunta: “quem te disse que eu quero ser salvo?”, sem excluir que existam sim pessoas que querem ser salvas, que existam pessoas que peçam ajuda e sobre elas falarei em artigos posteriores.
          Desenvolverei, na próxima semana, alguns aspectos da realidade psíquica, tentando esclarecer melhor essa diferença: realidade do mundo/realidade psíquica.
          Gostaria de convidar o leitor a enviar perguntas por email. Seria muito interessante desenvolver essa temática a partir de questões que surgissem por meio de uma conversa com o leitor.

Elisabeth Almeida – psicanalista
bethxxxalm@yahoo.com.br

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Reflexões sobre o filme: Triângulo amoroso

          Sob a direção de Tom Tylwer, este filme alemão apresenta o envolvimento amoroso de Hanna e de Simon, casal que vive em Berlim, e se relaciona com um mesmo homem. Não é de um triângulo que se trata. Trata-se da relação de cada um dos dois com um mesmo homem.
          Casado, Simon, repentinamente, se encontra em uma situação erótica com um homem desconhecido. Nada indica, anteriormente, que ele possuía uma fantasia dessa ordem, nada aponta para uma busca desta natureza. O que se dá é da ordem do puro encontro contingencial com um outro e, conseqüente, produção de efeitos sobre Simon, que se entrega, permite e vive a experiência. Não o faz sem uma certa perplexidade, nem sem a expressão de quem não sabe o que está fazendo. Mas ele se entrega.
           Até então, Simon era um homem que possuía uma mulher, vivia com ela. De um momento para outro, é um homem que, num encontro casual com outro homem, numa situação absolutamente cotidiana, se vê sendo tocado sexualmente por esse desconhecido e permitindo. Experimenta o prazer que aquele lhe proporciona, na surpresa da situação. Sem recusa, sem falsos pudores, permite e desfruta. Cena carregada de força, de erotismo, de entrega, permeada pela incompreensão e pela suportabilidade. Cena de entrega e permissão. Apenas.
            Logo depois, naturalmente, ele expressa sua perplexidade dirigindo-se ao outro homem: "não sou gay". Talvez esteja dizendo isso a si mesmo. A questão que o filme coloca não é a de ser ou não ser gay, a questão é: há um corpo e esse corpo goza. A resposta que o homem desconhecido lhe dá é: “apenas não considere a realidade anatômica”. Apenas isso. E daí em diante ele vive a experiência de novos encontros. Diluída sua "identidade sexual", ele se relaciona tanto com esse homem, quanto com a mulher com quem já vivia.
           Antes desse acontecimento, sua mulher havia se sentido atraída por um outro homem e mantinha encontros eróticos com ele. Ocorre que esse "outro" de sua mulher é o mesmo "outro" desconhecido com quem Simon se relaciona.
           Ninguém sabe de ninguém.
           Num dado momento, o homem desconhecido quer ir na casa de Simon. Este lhe diz: “Eu não vivo sozinho”. Até então os encontros do desconhecido com Simon se dão em sua casa, onde vive só.
           Em outra cena, o desconhecido quer ir na casa de Hanna. Esta lhe diz: “Não vivo sozinha”.
          Tudo parece ir bem. Suportam cada um por si seus desejos, suas escolhas, suas entregas amorosas. O homem desconhecido se relaciona sexualmente com Hanna. Ela se entrega a isso. Ela se relaciona com seu marido. Seu marido se relaciona com o desconhecido e se relaciona com ela, cada um a sua vez.
            Até que um dia ela vai até a casa do homem desconhecido, desesperada porque descobriu que estava grávida. Debaixo da chuva, bate na sua porta insistentemente, exige que ele abra. Ao entrar, ele lhe diz: “Eu não estou sozinho”. A figura de Simon surge no campo visual de Hanna quando esta está revelando ao homem desconhecido a gravidez, que certamente é dele. Simon escuta sua mulher dizendo ao desconhecido sobre a gravidez. Hanna vê seu marido saindo da cama do homem desconhecido.
            É uma história que nos convida a inventar um término ao sabor do desejo de cada um de nós.
            De qualquer forma, nos propõe algo. No lugar de um drama recheado de pedidos indignados de explicações, no lugar de rancores de propriedade, o filme termina em uma cena de alta sensualidade, amorosa, desprovida de sentido, desprovida de anatomia definidora, de possessividade.
            Cena de desejo puro. Mais uma, cheia de beleza, que o cinema pode nos proporcionar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ver e não acreditar

                      Fazendo a leitura de mais um romance de Alessandro Baricco, “A paixão de A.”, encontro, mais uma vez, a possibilidade de pensar as questões humanas mais delicadas. Constato novamente que não foi por acaso que Freud, ao ser indagado sobre quem teriam sido seus mestres, apontou a literatura e os poetas.
                      A questão que me move neste momento é um fragmento deste romance. A história gira em torno da vida de quatro garotos (o narrador, Luca, Bobby e Santo) e de uma garota (Andre – que dá título ao livro).
                      Escreverei sobre Luca. Seu pai, tido como um homem deprimido, é mostrado numa cena em que se levanta da mesa, onde a família reunida fazia uma refeição, caminha até a sacada e é visto pela mulher e por Luca, pelo vidro da janela, de costas, um pouco curvado, encostado no parapeito. Quando Luca relata esse episódio ao amigo, diz a ele que: “Eu acho que meu pai vai ali para se jogar. Depois não tem coragem de fazê-lo, mas toda vez se levanta e vai lá com essa idéia”.
                      Muitas coisas acontecem na vida desses garotos e cada um vai respondendo a elas do seu jeito. Até que algo muito forte se dá com eles, envolvendo uma experiência sexual, medo, culpa e vergonha.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Reflexões a partir de um filme: O Tempo que Resta



         Um jovem fotógrafo, num momento muito bom de sua vida profissional, recebe o diagnóstico de uma doença já em fase terminal. Depois do impacto inicial, faz uma escolha: viver da maneira mais interessante possível, e sem dramas, o tempo que lhe resta.
         Por mais que a tristeza se apresente, aquilo que poderia se colocar dramaticamente é substituído pelas escolhas e pela entrega a viver de um modo que nos dá muito o que pensar.
         O jovem retoma os aspectos da sua vida com um olhar sem pudor, sem compaixão, sem mediação, sem meio-termo, sem contemporizações.
         Permite-se dizer o que pensa, perguntar o que quer, fazer o que não esperava fazer, permite-se, enfim, colocar-se em outra posição na vida.
         Depois de acompanhar os movimentos do personagem, o filme nos leva à sua chegada em uma praia. Apesar da sugestão de que ele vai se matar no mar, o que vemos é ele tomar um último e prazeroso banho de mar, depois do qual se deita na areia em meio aos outros banhistas.
         Ao pôr do sol, todos juntam suas coisas e partem. Ele não se move. Está tudo terminado, está morto.
         Ficamos escutando o ruído das ondas, enquanto escurece.
         Destaco a questão da existência de uma diferença radical entre viver sem que a data da morte esteja marcada e viver uma vida cuja interrupção tem sua data anunciada, como era o caso do personagem deste filme. Evidentemente, são duas experiências muito diferentes.
         Por exemplo, só sabemos que um encontro foi o último, depois do encontro. E, mesmo assim, só podemos saber disso se sobrevivemos a esse encontro e se o outro se foi. Ou seja, não dá para viver, cotidianamente, como se fosse a última vez. Porém, isso não anula aquilo que chamarei aqui de “amor ao tempo que resta”.
         Freud utilizou a palavra “procrastinação” para dizer do conhecido “deixa pra depois” – que contraponho ao “amor ao tempo” – sob a forma da responsabilidade com o que se deseja e do compromisso com a ação.
         Trata-se da sustentação do desejo em contraposição à possibilidade sempre presente, em maior ou menor grau, de usar os acontecimentos que nos atravessam como suportes ao adiamento, à procrastinação – que são formas de não assumir a responsabilidade pelo próprio desejo.
         Nesse sentido, o que o filme nos mostra é uma lida com o tempo e com a responsabilidade pela ação que anula uma pergunta bastante recorrente: – Por que eu não fiz o que eu queria, naquele momento?
         Esse momento lamentado já é sempre passado, inacessível a qualquer ação.
         Penso que o “amor ao tempo” pode dar sustentação a um compromisso com a ação. Num determinado sentido, tudo o que temos é o tempo. O tempo que resta.
         Nessa dimensão da finitude, da transitoriedade, podemos pensar o amor como ato e o ato como amor. Em nome do amor ao tempo.
         “Amor ao tempo” não é necessariamente um amor contemplativo, passivo. O tempo não me parece ser algo para ser aproveitado em si mesmo, porque, para cada um de nós, ele é sempre o tempo que resta.
         A idéia de que deixando para depois se ganha tempo ou a idéia de que fazendo agora se aproveita o tempo, idéias de “ganhar e “aproveitar” são duas idéias banalizadas. Penso que o tempo escapa destas possibilidades, destes registros. Assim, precipitar a ação ou procrastinar são, ao meu ver, duas vertentes significativas de relação com o tempo, ambas com conseqüências distintas dentro da experiência humana.
         O amor ao tempo que resta pode nos lançar numa dimensão que empurra a ação, uma ação que concerne ao desejo sob a forma do compromisso e da responsabilidade. É a posição que o personagem do filme acaba por assumir, sabendo do tempo que lhe resta. Ela é diferente da posição do poeta Rilke, que acompanhava Freud num passeio, num lindo dia de verão – que Freud assim a descreveu:

“O poeta admirava a beleza do cenário que nos rodeava, porém não se alegrava com ela. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava condenada à extinção, pois desaparecia no inverno, e assim também toda beleza humana e tudo de belo e nobre que os homens criaram ou poderiam criar. Tudo o mais que, de outro modo, ele teria AMADO e admirado, lhe parecia despojado de valor pela transitoriedade que era o destino de tudo.” (FREUD, A transitoriedade,1916)

         Em contraposição a essa posição do poeta, Freud afirma o valor das coisas justamente por sua transitoriedade, seu “valor de raridade no tempo”.
         Assim, podemos pensar que amar o tempo é dar-se conta de que sempre há uma limitação à possibilidade de desfrutar das coisas nele.
         Talvez, a melhor maneira de responder a essa limitação seja comprometer-se com seu desejo e sua ação pelo tempo que nos resta.

*Artigo também publicado na Gazeta de Varginha em 29/11/11.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Culpa e antigos amores

          Partindo do princípio de que tivemos nossos primeiros e fundamentais amores e que quando fizemos a passagem (ou não fizemos) para amores outros, estamos agora nos perguntando se haveria uma relação entre as dificuldades – os sofrimentos – amorosas e esses primeiros amores.  
          Haveria, além da culpa de desejar, uma culpa gerada pelo movimento de substituição desses primeiros e fundamentais amores pelos amores outros?
          Quais as relações entre desejo e amores?
          O outro, num primeiro momento, de uma maneira especial, e depois, no decorrer da vida, é fundamental na constituição daquilo que será o meu “eu”.
          Para que eu – um filhote humano sem defesas e sem condições de sobrevivência logo após meu nascimento – tenha podido manter-me vivo, foi preciso um outro que, bem ou mal, me amparou e cuidou de mim nestes primeiros tempos.
          Esse outro não me permitiu apenas sobreviver. Foi graças a ele que eu também me constitui como humano, ou seja, como ser de linguagem. Como tal, eu me constitui como quem se percebe tendo/sendo um “eu”, coisa que não se dá com o filhote dos animais.
          Esse “outro”, ao cuidar (ou descuidar) de mim, esperou e desejou coisas de mim e para mim. E eu as entendi como pude. Essas coisas, da maneira como eu as entendi, me marcaram, atuaram em mim como os primeiros fios que teceram meu psiquismo.
          Isso quer dizer que ao ser cuidado (ou descuidado) por um outro, eu recebo dele, também, as mãos que me amparam, os toques que me erotizam (ou não), os olhos que me olham (ou não), a maneira como me alimenta, me aquece, eu recebo junto o que esse outro espera de mim, pensa sobre mim, deseja ou não para mim. Isso faz marcas em meu corpo e em meu psiquismo. Essas duplas marcas, eu as recebo (sou submetida a elas) e as interpreto como posso. Isso quer dizer que, ao recordá-las, seguramente, haverá uma discrepância entre como se deram e como eu as registrei. Não há como ter um registro de como o outro foi “exatamente”.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Flash 6: Bom demais para ser verdade

         Todos os anos, Freud costumava fazer, em companhia de seu irmão mais novo, uma viagem de férias que os levava a Roma ou a alguma região da Itália ou então a alguma parte da costa do Mediterrâneo. Em um determinado ano eles tinham apenas uma semana para desfrutar dessa viagem. Ao comentar com um amigo que iriam a Triestre, ouviram a opinião de que, naquela época do ano, este não seria um passeio agradável e receberam a sugestão de que fossem a Atenas. 
         Assim, terminada a visita ao amigo, eles se despediram e, na seqüência, passaram uma tarde bem estranha. Aos poucos, foram constatando as dificuldades que esta ida a Atenas portava e isso foi os deixando bastante desanimados, aborrecidos. Mas, mesmo assim, sem que a decisão fosse esclarecida entre eles, ambos tomaram, uma a uma, as providências necessárias para a realização da viagem. Compram as passagens para Atenas e para lá se dirigiram.
         Isso nos mostra como algo desejado (no caso deles, a viagem para Atenas) pode ser preparado como se fosse algo escondido de nós mesmos. Podemos fazer esse “disfarce” sob o manto do desânimo, do cansaço, da preguiça, da sensação de impossibilidade, ou colocando dificuldade.
         Quão estranhos nos sentimos quando queremos muito algo e vamos “dando defeito” à medida que nos encaminhamos para a sua realização. Como estranhamos nossa falta de entusiasmo diante da possibilidade de fazer algo com o qual sonhamos tanto. Como é possível fazer sim o que é necessário, mas de uma forma disfarçada, arrastada, desanimada? Ou como é possível até mesmo chegar a não fazer, colocando diante de nós uma montanha de dificuldades intransponíveis? Ou como é possível chegar à conclusão de que se as dificuldades são tantas é porque não era para ser feito? Ou pensar que se o desânimo é tamanho é porque eu não queria de verdade?
         Os irmãos Freud, apesar do desânimo, (ou talvez protegidos por ele) chegaram a Atenas. No lugar da esperada sensação de alegria, o que experimentaram foi um sentimento de incredulidade, expresso assim: “Então, tudo isso realmente existe mesmo?!!”. Diante da beleza do lugar, da conquista do tão almejado sonho de ver a Acrópole, a expressão do “é bom demais para ser verdade” toma conta deles.
         Estranho,... muito estranho. Porém, podemos reconhecer isso também em nós nas vezes em que, quando desejamos algo, fazemos um caminho que claramente esconde o percurso, como se não o estivéssemos fazendo. Vamos como se não estivéssemos indo, falamos como se não estivéssemos falando. Escondemos de nós mesmos uma alegria que poderia ser desfrutada por estarmos indo em direção à nossa Atenas, naquele momento. E mais, ao chegarmos lá, no lugar da celebração do realizado, ficamos perplexos, chocados, meio perdidos diante da existência concreta da nossa Atenas. “Como pode o “destino” nos proporcionar algo tão bom?” – parece ser essa a pergunta. “Não pode.” – parece ser a resposta.
         Um outro sentimento que pode se apresentar é o: “não mereço tanta felicidade!” – que seria uma variação do: “não pode ser verdade”.
         Parece um contra-senso falar de nossa pouca disponibilidade às experiências gratificantes e prazerosas. Parece. Mas sabemos que há quem perde a hora, perde o bonde, esquece o caminho, fala o que não precisa, adoece, escolhe a roupa mais feia, justamente quando seria mais importante chegar, entrar, agüentar o silêncio necessário, dizer a palavra que importa, colocar-se bem vivo, se fazer bonito, levar a viagem adiante. Desde que “isso que é bom demais” possa sim ser verdade, desde que eu possa sim estar bem contente, bem alegre, nos momentos em que a vida é alegria e prazer.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Culpa, sofrimentos e amores

            Estamos nos perguntando como sair da oferenda do sofrimento no amor. As perguntas que havíamos deixado abertas no texto “Eu te ofereço meu sofrimento” eram:
            - Como amar sem excluir, sem judiar, sem confrontar, sem se alienar no outro?  
            - Como amar sem sofrer e sem produzir sofrimento no outro?
Para pensar um amor fora da oferta do sofrimento, foi necessário perguntar sobre o sofrimento. Por que, nas relações amorosas, essa oferta? Por que, no momento onde meu desejo coincide com o teu, o que ambos ofertamos produz o efeito opaco, sem graça, sem sabor?
Estamos propondo que esse sofrimento esteja articulado com a culpa. Explico: Eu desejo. Permanentemente, no âmago da minha solidão, no que me pertence, e só a mim pertence, eu desejo. E experimento isso como algo inadequado, errado. É muito difícil suportar algo que me pertence e que não tem o aval da compreensão do outro, do entendimento do outro. Então, eu desejo. Trago comigo essa experiência estranha e solitária. Muito fácil trazer junto a culpa por desejar. Desejar me distingue do outro, me diferencia, me coloca fora do alcance dele. Fora do alcance da comunhão com ele posso, facilmente, experimentar isso como culpa. E culpada, inevitavelmente, sofro. De alguma forma sofro. Seja no corpo, seja na falta de entusiasmo na vida, seja no que for. Minha vida toma a tonalidade do sofrimento. E aí, quando te encontro, o que tenho a te oferecer é o sofrimento. Sofrimento vestido de “amor”. É o que tenho para te dar. Se o que se busca no amor é o “par”, minha oferta de sofrimento visa encontrar com o seu sofrimento também. Eu sofro, você sofre, aí estamos juntos. Completa-se o circuito. 
Com isso chegamos à proposta de pensar a culpa como resultante do desejo, como estranho a mim mesmo e estando na origem do sofrimento imposto a si e, depois, ao outro.
Chegamos à culpa como a carta do “jogo do amor” que determina que o sofrimento será a música, a oferta, o fruto colhido em cada encontro.
E nos perguntamos:
Qual a relação entre as dificuldades amorosas – os impossíveis, os sofrimentos amorosos – e os nossos primeiros amores?
Haveria, além da culpa de desejar, uma culpa gerada pelo movimento de substituição dos primeiros e fundamentais amores, pelos amores outros?
            Quais as relações entre desejo e amores?

(texto elaborado a partir do encontro do dia 01 de novembro de 2011, com a colaboração de Ana Paula G. Garcia).

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Eu te ofereço meu sofrimento

          
       Três experiências humanas são da ordem da mais absoluta solidão: nascer, desejar e morrer. É curioso constatar que todas elas, de uma certa maneira, incluem o outro. Vejamos cada uma delas.
         Nascer.  Ninguém nasce em meu lugar – ninguém pode nascer por mim. Eu posso estar exposta a uma série de cuidados, por parte de terceiros, ou não. De qualquer forma, minha mãe participa desse momento. Mas a participação dela não anula o fato de que quem nasce sou eu. 
Morrer. Ninguém morre em meu lugar – ninguém pode morrer por mim – embora possa acontecer de isso se dar, ou não, com a participação, presença ou auxílio de um terceiro. Mas quem morre sou eu.
Desejar. Ninguém deseja em meu lugar – ninguém pode desejar por mim – embora meu desejo seja tecido com os fios daqueles que desejaram e desejam algo para mim, que esperaram algo de mim, que foram os primeiros que me reconheceram e que eu reconheci como referências para construir uma identidade, uma história.
Gostaria de apresentar essa tríade como o “nascer” sendo o marco zero, o ponto de chegada, o “morrer” sendo o marco final, o ponto de término, e, nesse intervalo, o “desejar” sendo o tempo da vida que porta uma experiência.
          Se desejar traz em si a mesma condição da vida e da morte – que é a solidão, a intransferibilidade, o impossível de ser delegado ao outro – proponho pensar o desejo como algo que mantém a mesma condição do nascimento e da morte: me pertence. Proponho pensá-lo como tão estranho quanto nascer e morrer. Mais ainda: como aquilo que, em vida, mantém a mesma especificidade da experiência de começar e de terminar. Inexplicáveis para mim são: nasci, vou morrer, desejo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Flash 4: Os bárbaros


Imagine uma criança ou um adolescente. Ou mesmo um adulto, vale para ele também. Imagine que você olha para o corpo dele e no lugar do braço você vê uma asinha ou coisa parecida. Com certeza sua primeira reação será de surpresa, de estranhamento. Você pode fechar os olhos para não ver, pode ficar preocupadíssimo com o que vê, pode ficar curioso e querer saber do quê se trata.
Fechar os olhos não vai fazer com que o já conhecido “bracinho” volte a se apresentar. Ficar preocupadíssimo pode levar você a pegar esse outro que apresenta essa “mutação” e levá-lo, por exemplo, ao médico – quem sabe ele pode operar, remendar, fazer de novo – ou mesmo levá-lo para algum outro tipo de conserto ou de isolamento.
Ficar curioso pode abrir portas muito novas para você e especialmente para esse ser que você olha e vê como diferente de você.
Esse é o ponto de partida escolhido por um autor italiano, Alessandro Baricco, e apresentado no seu livro: “Os bárbaros – Ensaio sobre a Mutação”.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Flash 3: Uma história sobre porquinhos engessados


O porquinho, esse bicho geralmente bonitinho, aparentemente contente, que anda pra lá e pra cá com seu rabinho enrolado e seu focinho curioso, uma hora sente calor ou vontade de brincar. Quem sabe? Então ele deita na lama e rola pra lá e pra cá, tendo a sensação gostosa de se lambuzar de frescura, de fazer bagunça, de brincar de mudar de cor.
No céu o sol brilha e envia junto com sua luz o calor.
Quando o porquinho se levanta, todo enlameado, uma camadinha dura se forma em seu corpo e ele fica um pouquinho menos ágil, por causa dela.
Da próxima vez que ele cai na lama, já não dá para saber se ele caiu porque estava pesado – por conta do engessamento feito pela lama que secou – ou se caiu porque quis rolar mais um pouquinho. Só se sabe que ele está mais duro. E, assim, é menos porquinho e mais parecido com um bonequinho de corda.
Essa história me faz pensar em todas as expressões da beleza que a cultura nos oferece, que nos encantam. Penso que quem as fez teve que quebrar a casquinha dura que engessa os movimentos, teve que abandonar a forminha de picolé que dá as dimensões prévias para serem preenchidas, teve que tirar a lente do olhar que fabrica o cimento que junta tijolos soltos em paredes sólidas e duras.
A arte não é apenas aquela considerada nas suas expressões artísticas. A arte é também a “arte de viver”. É a beleza fora do “modelito”, é a existência singular fora do molde da “normalidade”, fora da unanimidade. Enfim, a “arte de viver” é a vida na qual permitimos outros tipos de criação possível, mesmo que essencialmente diferente do convencionado como “obra de arte”.
Fazer coisas “grandiosas”, que vão encher de prazer os olhos de muitos, e fazer coisas “singulares”, que vão encher de prazer os olhos de quem as faz, exige que percorramos caminhos diferentes, por um lado, mas absolutamente iguais, por outro. Em ambos os percursos é necessário quebrar o gesso. E isso exige do porquinho inventar outras formas de brincar que não o engesse e nem o transforme em bonequinho de corda, tal como exige de nós que sustentemos nossos próprios caminhos, que sejamos corajosos para construir nossas respostas, na solidão do nosso desejo, na beleza da nossa diferença.